domingo, 18 de março de 2012

gráVIDA



Grávida

A mulher é Gaia

Solo que generosamente

Se deu à semente

E agora espera

Paciente

O momento em que a vida

Que pulsa oculta no ventre

Possa vir à luz

Sorver o seio

Acolhida ao colo

Viver

Ser gente


.

Foto da internet, sem informação de autoria

domingo, 4 de março de 2012

Véus

O hinduísmo tem por princípio que o mundo percebido é ilusão: entre o mundo físico e nossos olhos existem obstáculos à captação das verdadeiras essências, os "véus de Maya". Estudiosos vêem semelhanças entre este ponto da antiga doutrina hinduísta e o "Mito da Caverna" do filósofo grego Platão, texto que narra de modo alegórico a busca pelo verdadeiro conhecimento das essências de todas as coisas, razão suprema da filosofia.

Curioso especular que todo esse desprezo pelos "véus" metafóricos se relacionem, em última instância, com o desprezo pelo corpo e por tudo o que ele simboliza e significa. O corpo é mutável e perene mas as essências são eternas... Também não foi por nenhuma coincidência que a Igreja, em seus primórdios, tenha bebido na fonte platônica e desconsiderado Aristóteles!

Mas são tantos os véus, simbólicos metafóricos ou reais...

Os véus reais são tecidos. E, em outro sentido, são tecidos por mãos humanas, para serem usados por homens e mulheres, com distintas intenções e significados. Mas vou aqui me ater aos seus usos femininos: há o véu que cobre a cabeça da fiel que ora; o que encobria a face da noiva e que, levantado, permitia o beijo ritual no altar; os véus que serpenteiam pelo corpo da dançarina na sensualíssima dança do ventre; o véu fundamentalista que encobre os sinais de feminilidade na cultura muçulmana, e tantos outros!

E este último exemplo me leva a falar dos "véus culturais", também humanamente "tecidos", mas não por mãos, e sim construídos pelos "modos de olhar". Apreendidos e naturalizados, estes véus formatam não apenas nosso olhar, mas nosso pensar e nosso sentir. Limitam nossa capacidade de ver e nos ver como somos, não em essência, mas enquanto seres que existem para além dos parâmetros de nossa própria e limitada cultura.

Cada um de nós deve decidir que véus nos servem e quais nos conformam. Quanto a estes, não podemos nos conformar!