quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Futilidades?

Não gosto de roupa justa, e não é só pelo desconforto, muito menos porque me envergonhe do meu corpo! O problema da roupa justa é que ela estabelece um diálogo muito óbvio com o corpo de quem veste. E a obviedade, sinônimo para a absoluta ausência de mistério, é o pior defeito que se pode admitir quando se trata do corpo de uma mulher! A elegância é o maior valor que uma mulher pode expressar, elegância em seu sentido mais amplo e profundo, que não pode ser confundido com o mero charme. O charme até admite uma dose de vulgaridade, e até mesmo pode vir a ganhar com uma dose dela. A elegância, não, nunca. Ora, não existe beleza altiva, isto é, elegância, na ausência de mistério, pois este implica uma certa distância, ao mesmo tempo em que se vislumbra para quem olha a possibilidade de uma epifania: mistura de surpresa e deslumbramento. E o encontro amoroso é um momento de epifania pagã que deve ser cuidadosamente preparado, e que só deve acontecer na intimidade à dois, no seu devido tempo, quando a mulher se deixa descobrir pelo olhar de seu homem em todos os seus contornos
É por isso que admiro a sabedoria ancestral que resultou no sari indiano, pois ele combina excelentemente a justeza do corte e, ainda que modernamente admita mais aberturas do que o sari tradicional, faz isso de modo muito sutil e mesmo dissimuladamente. No seu conjunto, dialoga com o corpo da mulher de modo a cobri-lo mais do que oferecê-lo gratuitamente aos olhos passantes, quase sempre ávidos e incultos que não o merecem!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Hypnos

Sempre me interessei pelos estados em que a mente divaga, foge para regiões não controladas pela luz, mergulha e retorna trazendo imagens estranhas ao mundo da vida real e que só podemos vislumbrar quando a consciência se apaga. Um estado mágico, em que o corpo em repouso e a mente em trabalho silencioso e intenso se unificam e tornam-se parceiros numa viagem, que muitas vezes é também busca. O grande Mistério! Sob as bênçãos e a proteção de Hypnos...

Pornografia

A palavra de vida fácil assusta, pois libera, solta a língua antes contida. A palavra, em seu sentido condicionada pelo "bom senso" da sociedade, nos condiciona: somos todos tolos, vítimas da proibição de sons e sentidos que as palavras malditas carregam. Nossas línguas, presas a hábitos, quando rompem as fronteiras encontram as cercas farpadas da censura altiva. Não nos é permitido o doce que é gozar pela boca a vida, ela mesma ávida a pedir a violência libertária e repetida do mantra que cantaria suas impurezas, todas essas belas, quentes redentoras impurezas que herdamos dela.

A imagem que ilustra esta postagem é a fotografia Stromboli Pietá, da artista Marina Abramovic, de quem sou admiradora.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sentindo uma pintura

Não sou nenhuma especialista em arte, então vou me permitir algumas reflexões soltas a partir desta tela de Iberê Camargo, da qual nem ao menos sei o nome. Importa?
Iberê Camargo é um escorpiano, como eu. Então ele entende e sabe da escuridão, do negrume da dor, do desespero e, por que não, das alegrias contidas e escondidas no fundo de cada um de nós. Cada desvão da alma pode ser um tesouro desconhecido, apenas aguardando nossa atenção e nossos cuidados. A lágrima que escorre é vida que flui, toda emoção se revela em líquido. A vida nasce líquida, o sêmen em busca da terra que é o útero, que acolhe, protege, nutre e gera. Toda depressão se origina na melancolia, que nada mais é que saudade não reconhecida. Saudade de quê? Talvez, do Paraíso perdido, mas que ainda guardamos como referência de felicidade... Expulsos do Paraíso, estamos grudados ao solo da vida. Então há que cuidar das raízes! Só assim enriqueceremos a seiva e daremos bons frutos...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Meteoritos são chave para vida na Terra

"Chuvas de meteoritos que atingiram a Terra há 4 bilhões de anos podem ser peças-chave para ajudar a decifrar o mistério de como a vida surgiu no planeta. Cientistas do Imperial College, de Londres, concluíram que frequentes tempestades de meteoritos teriam liberado gases suficientes para deixar o planeta mais quente e com água, gerando condições ao surgimento de vida.
– Devido à sua composição química, existem sugestões de que os antigos meteoritos foram uma forma de fornecer à Terra, logo no início, água em estado líquido – afirmou o autor da pesquisa, Richard Court.
Com base nas estimativas do número de impactos registrados neste período, os pesquisadores acreditam que 10 bilhões de toneladas de água e dióxido de carbono teriam sido trazidos à Terra a cada ano, durante o período conhecido Bombardeio Pesado Tardio (LHB, na sigla em inglês). Durante o período, um número extraordinariamente alto de meteoritos atingiu vários planetas do Sistema Solar.
Os cientistas sugerem que isso, por sua vez, teria levado a um aquecimento do planeta, à formação de oceanos líquidos e a um ambiente mais habitável.
– Agora, temos dados que revelam o quanto de água e dióxido de carbono foram injetados diretamente pelos meteorito. Estes gases poderiam ter começado a agir imediatamente, estimulando o ciclo da água e esquentando o planeta – disse Court, que publicou o trabalho na revista especializada Geochimica et Cosmochimica Acta.
Para chegar à esta conclusão, os pesquisadores aqueceram rochas espaciais para medir os gases que teriam sido liberados quando os meteoritos entraram na atmosfera. A equipe aqueceu 15 fragmentos de meteoritos antigos recolhidos de várias partes do mundo em até 20 mil graus Celsius. Assim, as rochas foram transformadas em gases.
Os cientistas descobriram que um fragmento médio de rocha liberava 12% de sua massa na forma de vapor de água e 6% como dióxido de carbono."



Esta matéria que li no Jornal do Brasil on line http://jbonline.terra.com.br/pextra/2009/06/19/e190618323.asp me fez pensar numa metáfora para o surgimento da vida no nosso planeta: a Terra, como um grande útero, sendo atingida e fecundada por uma chuva de meteoritos-espermatozóides!!!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Tantra

O ocidente nada entende do sexo, e a modernidade apenas piorou o quadro como um todo. A liberação sexual foi um engodo, e o próprio termo “liberação” mostra as diferenças do estado atual da sexualidade com relação a uma verdadeira e real libertação. Libertação não da mulher, nem do homem: libertação das energias que o ocidente desconhece e, desconhecendo, deixa ao sabor do acaso. Freud foi pioneiro no ocidente a pensar o sexo como pulsão (suas afirmações sobre a sexualidade infantil chocaram o meio da época), mas infelizmente por razões históricas desenvolveu seus estudos mais como um "problema" e, em última análise, defendia uma certa dose de repressão para que a civilização se mantivesse de pé. Reich tinha razão quando apontava a sexualidade como o fator central da experiência humana, não como "nó", mas como possibilidade de revolucionar a convivência entre os sexos e, indo além, chegando a transformar as relações sociais. Neste sentido, talvez tenha sido o primeiro “cientista” ocidental a entender profundamente as energias envolvidas no ato sexual. Jung abordou com propriedade o lado místico da sexualidade, como alquimia e “misterium connunction”. Mas infelizmente são vozes isoladas num deserto de incompreensão, estupidez, cegueira e preconceitos. Até mesmo os “moderninhos” que dizem seguir e praticar o tantra estão mais para adolescentes tardios, deslumbrados com uma liberdade superficial e incapazes de compreender em profundidade a necessidade de disciplina e real ligação entre os parceiros para que o “mistério” e a luz se façam a partir do mais recôndito território que guardamos em nós. Incapazes de compreender o corpo como veículo, apenas aumentam quantitativamente o prazer que, se bem conduzido, os elevariam em qualidade de vida e de compreensão cósmica. É pena!

No mar sou estrela

Toda água é meu elemento: rios, cachoeiras, lagos, lagoas... Mas só o mar sabe à sal. No fluxo das cachoeiras sinto o fluxo da vida, mas quando me banho no mar é como se retornasse ao útero da Grande Mãe mítica. No mar sou criança outra vez: livre, alegre, liberta, vivendo o presente que me é concedido. No mar sou estrela e luz. E brinco de ser eu, sem nenhum outro compromisso que não seja flutuar. Por que no mar eu não mergulho: o mar é meu ar.

domingo, 19 de julho de 2009

Coração em chamas

Meu coração em chamas na verdade é lento. Meu coração sente muito. E só se dá de presente quando atento ao que os olhos não vêem. Sei muito bem o que meu coração deseja: quer amor, quer carinho. Meu coração busca aconchego e sossego depois do sexo e da cama. Meu coração é exigente, dado a muito pouca gente. Quando se abre de repente é porque já teceu a teia em volta do amor que é chama, saboreando a trama.

sábado, 18 de julho de 2009

Tumbas de la Gloria

Tu amor abrió una herida porque todo lo que te hace bien siempre te hace mal, / tu amor cambió mi vida como un rayo, para siempre, para lo que fue y será. / La bola sobre el piano la mañana aquella que dejamos de cantar, / llego la muerte un día y arrasó con todo, todo, todo, todo un vendaval - y fue un fuerte vendaval. / Algo de vos llega hasta mí, cae la lluvia sobre París, pero me escapé hacia otra ciudad / y no sirvió de nada porque todo el tiempo estabas dando vueltas y más vueltas / que pegué en la vida para tratar de reaccionar, / un tango al mango revoleando la cabeza como un loco de aquí para allá, de aquí para allá / Después vinieron días de misterio y frío, casi como todos los demás, / lo bueno que tenemos dentro es un brillante, es una luz que no dejaré escapar jamás. / Algo de vos llega hasta mí, cuando era pibe tuve un jardín,pero me escapé hacia otra ciudad / y no sirvió de nada porque todo el tiempo estaba yo en un mismo lugar, / y bajo una misma piel y en la misma ceremonia. / Yo te pido un favor, que no me dejes caer en las tumbas de la gloria.

a música é do argentino Fito Paez
o desenho é do espanhol Picasso
me gustan!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Flamenco

Dançar o flamenco é sentir intensamente cada passo, cada momento. No flamenco o corpo vibra com uma violência que é a própria violência da existência, que apenas não sentimos porque o cotidiano nos afasta de nossas mais íntimas pulsões. Sou uma junguiana convicta, mas dou a mão à palmatória a Freud neste ponto: a civilização nos impôs o superego e este nos impõe aquele nível de repressão que torna possível a tal da “civilização”. Que preço a pagar! Então cada um se vira como pode: eu danço o flamenco! Danço o flamenco para me tornar um corpo, para que meus gestos expressem minhas verdades mais íntimas, para que meus pés tomem posse do chão em que piso, para que minha alma alcance as alturas e os abismos, para que o sangue flua.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Cachoeira

Amor é cachoeira. É queda de Vênus em doce espuma, a fluir inteira. Coisa de encontro de mortal com deuses e deusas, o amor une e liga. O mar é horizonte, mas cachoeira é fluxo. A cachoeira está sempre lá, mas está sempre indo embora, é sempre outra a cachoeira. É bicho vivo, encantado. E encantador. Cai em murmúrios, gritos, sons que nascem na pedra e respingam, úmidos, nos ouvidos, poros, pele. Eu entro na cachoeira e a cachoeira entra em mim, a água da cachoeira me entra pelo sexo e se abriga em meu corpo, eu sinto.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Azul

Já conheci e amei um luar todo azul. Nele me fiz, me desfiz. Ele, em mim, apenas se refez, talvez. Tempos, sonhos, momentos plenos vivemos. Mas éramos dois. Eu sabia, mas ele não, que um dia ele se iria. E voltaria. Eu o receberia, como o recebi, de fato. Mas o que ele não sabia era o azul que era e tinha. E como isso me doía! Ele me acariciava de azul, e só eu sentia. Ele era todo uma melodia em azul, e não se ouvia. Quando me penetrava, me preenchia de azul, mas era eu que comia. Suas palavras, de todos os matizes do azul; seu corpo, seu suor, seu cheiro: azul, azul, azul, desperdiçado, se não fosse meu olfato. Até que um dia um dia se fechou em negro o azul que foi meu um dia. Não foi de repente, não veio dele nem de mim a dor e a despedida. Veio do negro que existe em toda cor, sempre à espreita. As cores morrem como nós, morrem por nós, morrem para nós. E do azul ao luto nossa história se desfez. Hoje busco ver na escuridão que agora é minha a beleza que um dia enxerguei no azul que era dele. E nesse mergulho no espaço sem luz sinto dele o azul agora em mim. Também era meu o azul que ele me deu, eu não sabia.

terça-feira, 23 de junho de 2009