quinta-feira, 24 de maio de 2012

Fluida




Me esvaio
de mim
e vou:

amar
o
mar

Sou
como um rio
que 
ao fluir
morre
sem jamais cessar
de existir



A imagem que acompanha o texto foi tirada da internet, sem crédito de autoria.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A pedra e a pele

Fotografia de Tomas Rucker


A pedra dura
A pele macia
Se tocam
Só a pele sente a pedra?
A pedra nada sentiria?


Mistérios da vida...
Nem sequer nos conhecemos totalmente, jamais chegaremos nem ao menos perto disso, mas especulamos... sobre outros seres... outras vidas... Quem sabe a pedra sinta ainda mais profundamente o que a nossa sensibilidade humana apenas apreende levemente? A pedra e sua densidade... Talvez, quem sabe, seres mais sábios, sensitivos... pois mais antigos... Quanto ar já roçou e quanto vento já açoitou esta rocha? Quanta água, doce, vinda caída do céu? Ou salgada, de antigos oceanos, lhe banhou e envolveu? Quanto tempo lhe desbastou sua natureza original, moldando sua forma atual?
Mistérios...
Mistérios da vida... da pedra

domingo, 18 de março de 2012

gráVIDA



Grávida

A mulher é Gaia

Solo que generosamente

Se deu à semente

E agora espera

Paciente

O momento em que a vida

Que pulsa oculta no ventre

Possa vir à luz

Sorver o seio

Acolhida ao colo

Viver

Ser gente


.

Foto da internet, sem informação de autoria

domingo, 4 de março de 2012

Véus

O hinduísmo tem por princípio que o mundo percebido é ilusão: entre o mundo físico e nossos olhos existem obstáculos à captação das verdadeiras essências, os "véus de Maya". Estudiosos vêem semelhanças entre este ponto da antiga doutrina hinduísta e o "Mito da Caverna" do filósofo grego Platão, texto que narra de modo alegórico a busca pelo verdadeiro conhecimento das essências de todas as coisas, razão suprema da filosofia.

Curioso especular que todo esse desprezo pelos "véus" metafóricos se relacionem, em última instância, com o desprezo pelo corpo e por tudo o que ele simboliza e significa. O corpo é mutável e perene mas as essências são eternas... Também não foi por nenhuma coincidência que a Igreja, em seus primórdios, tenha bebido na fonte platônica e desconsiderado Aristóteles!

Mas são tantos os véus, simbólicos metafóricos ou reais...

Os véus reais são tecidos. E, em outro sentido, são tecidos por mãos humanas, para serem usados por homens e mulheres, com distintas intenções e significados. Mas vou aqui me ater aos seus usos femininos: há o véu que cobre a cabeça da fiel que ora; o que encobria a face da noiva e que, levantado, permitia o beijo ritual no altar; os véus que serpenteiam pelo corpo da dançarina na sensualíssima dança do ventre; o véu fundamentalista que encobre os sinais de feminilidade na cultura muçulmana, e tantos outros!

E este último exemplo me leva a falar dos "véus culturais", também humanamente "tecidos", mas não por mãos, e sim construídos pelos "modos de olhar". Apreendidos e naturalizados, estes véus formatam não apenas nosso olhar, mas nosso pensar e nosso sentir. Limitam nossa capacidade de ver e nos ver como somos, não em essência, mas enquanto seres que existem para além dos parâmetros de nossa própria e limitada cultura.

Cada um de nós deve decidir que véus nos servem e quais nos conformam. Quanto a estes, não podemos nos conformar!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A pele é a minha casa

A mulher que nada. A pele do corpo que flutua em contato com a pele de sal, superfície do mar. Superfície contra superfície, pele e mar: carícias, contatos estimulando e ativando profundezas insuspeitas... Emoções varridas pelo vento suave, que encrespa as águas e arrepia o corpo nu. O dorso oferecido ao mistério abissal, o ventre aberto ao sol. Olhos: oclusos. Miram o sonho, o nunca visto, os pré-sentidos do que pode ser apenas pressentido. O grande útero aquático me sustenta, me ofereço, corpo e alma, em terno sacrifício. Existo. Sou. Eu sei? Eu sinto.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Suzanne Valadon: modelo e pintora

Suzanne Valadon no seu estúdio, foto de 1926


Poucas mulheres tiveram seus nomes incluídos na História da Arte. Muitas razões explicam e justificam esta ausência feminina no território das artes plásticas, pelo menos até meados do século passado, quando a modernidade se impôs.

Vera França
Mas como toda regra possui suas exceções, antes disso algumas mulheres furaram este bloqueio e se impuseram como artistas, como é o caso da pintora francesa Suzanne Valadon (1865-1938), personagem principal deste post.

Suzanne por Lautrec
Digo personagem principal porque escrevo este post motivada por uma interessantíssima matéria publicada recentemente no jornal Folha de S. Paulo sobre a trajetória de uma senhora de 70 anos, Vera França, que trabalha como modelo desde os 20 anos de idade. A matéria vem acompanhada de fotos belíssimas! E mostra Vera no passado, moça, posando para artistas importantes como o modernista Flávio de Carvalho (1899-1973) e também hoje em dia, já uma senhora, ainda exercendo com dignidade seu trabalho de modelo-vivo.

Suzanne Valadon: "Nus"
Bom, acho que vocês já perceberam qual o link entre as duas personagens, não? Pois, como diz o título deste post, Suzanne Valadon também trabalhou como modelo-vivo paralelamente à sua atividade artística, como mostra a imagem acima, à esquerda, a tela "The Hangover", retrato de Suzanne Valadon pintado por Toulouse-Lautrec, em 1888. E seu reconhecimento como pintora é recente, não por falta de talento, como provam as suas pinturas, mas talvez pela sua condição feminina. Inclusive ela ainda é mais reconhecida como mãe do também pintor Maurice Utrillo (1883-1955), excelente e sensível artista, famoso pelas paisagens melancólicas que pintava de Paris. Ao contrário, a pintura de Suzanne era feita de cores vibrantes, como a tela “Nus”, de 1919, do acervo do nosso MASP.

Como já disse em postagens anteriores, não sou uma entendida em arte, apenas uma curiosa pela beleza. Portanto este post, depois de tanto tempo em silêncio, é uma homenagem à beleza dessas duas mulheres, Suzanne Valadon e Vera França, distantes no tempo e no espaço, porém semelhantes na coragem de viver e se expor – sempre com dignidade.


Para quem quiser conhecer mais sobre Suzane Valadon, recomendo o blog “It’s About Time” e o verbete da Wikipedia sobre a artista (em inglês)