O hinduísmo tem por princípio que o mundo percebido é ilusão: entre o mundo físico e nossos olhos existem obstáculos à captação das verdadeiras essências, os "véus de Maya". Estudiosos vêem semelhanças entre este ponto da antiga doutrina hinduísta e o "Mito da Caverna" do filósofo grego Platão, texto que narra de modo alegórico a busca pelo verdadeiro conhecimento das essências de todas as coisas, razão suprema da filosofia.Curioso especular que todo esse desprezo pelos "véus" metafóricos se relacionem, em última instância, com o desprezo pelo corpo e por tudo o que ele simboliza e significa. O corpo é mutável e perene mas as essências são eternas... Também não foi por nenhuma coincidência que a Igreja, em seus primórdios, tenha bebido na fonte platônica e desconsiderado Aristóteles!
Mas são tantos os véus, simbólicos metafóricos ou reais...
Os véus reais são tecidos. E, em outro sentido, são tecidos por mãos humanas, para serem usados por homens e mulheres, com distintas intenções e significados. Mas vou aqui me ater aos seus usos femininos: há o véu que cobre a cabeça da fiel que ora; o que encobria a face da noiva e que, levantado, permitia o beijo ritual no altar; os véus que serpenteiam pelo corpo da dançarina na sensualíssima dança do ventre; o véu fundamentalista que encobre os sinais de feminilidade na cultura muçulmana, e tantos outros!
E este último exemplo me leva a falar dos "véus culturais", também humanamente "tecidos", mas não por mãos, e sim construídos pelos "modos de olhar". Apreendidos e naturalizados, estes véus formatam não apenas nosso olhar, mas nosso pensar e nosso sentir. Limitam nossa capacidade de ver e nos ver como somos, não em essência, mas enquanto seres que existem para além dos parâmetros de nossa própria e limitada cultura.
Cada um de nós deve decidir que véus nos servem e quais nos conformam. Quanto a estes, não podemos nos conformar!

7 comentários:
Belo texto,minha cara!Sigo-te daqui por diante!
Muito obrigada pela gentileza, Cristiano!
Já sou seguidora do seu blog de haicais,
um abraço!
Olá...fiquei aqui pensando nos meus véus...espero me desnudar de quantos me for possivel.
Beijos.
Olá, Tânia:
Como o tempo, somos feitas de muitas camadas... com o tempo, vamos nos despindo do inútil em nós...
Seja bem vinda!
Que magnífico texto Alma!!Quantos e quantos véus inúteis tb nos vestem... E os incômodos véus, aqueles que nem fomos nós que nos vestimos... É... há muitoa que se despir... Bjsss
Isso mesmo, Regina:
Os que causam mais incômodo são os véus que escolheram por nós... e "apenas" aceitamos... como manequins em vitrines...
Muita luz e paz!
há o véu de Penélope famoso que de noite era desfeito do feito de dia ; véu diário tecido pelas próprias mãos ; no caso ilusão de um marido por 20 anos ausente: e quando ele chegou o cachorro o reconheceu mas ela não. ( o cachorro morre em seguida e Ulisses chora ).
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