
Grávida
A mulher é Gaia
Solo que generosamente
Se deu à semente
E agora espera
Paciente
O momento em que a vida
Que pulsa oculta no ventre
Possa vir à luz
Sorver o seio
Acolhida ao colo
Viver
Ser gente
.
Foto da internet, sem informação de autoria
um mergulho...
O hinduísmo tem por princípio que o mundo percebido é ilusão: entre o mundo físico e nossos olhos existem obstáculos à captação das verdadeiras essências, os "véus de Maya". Estudiosos vêem semelhanças entre este ponto da antiga doutrina hinduísta e o "Mito da Caverna" do filósofo grego Platão, texto que narra de modo alegórico a busca pelo verdadeiro conhecimento das essências de todas as coisas, razão suprema da filosofia.
A mulher que nada. A pele do corpo que flutua em contato com a pele de sal, superfície do mar. Superfície contra superfície, pele e mar: carícias, contatos estimulando e ativando profundezas insuspeitas... Emoções varridas pelo vento suave, que encrespa as águas e arrepia o corpo nu. O dorso oferecido ao mistério abissal, o ventre aberto ao sol. Olhos: oclusos. Miram o sonho, o nunca visto, os pré-sentidos do que pode ser apenas pressentido. O grande útero aquático me sustenta, me ofereço, corpo e alma, em terno sacrifício. Existo. Sou. Eu sei? Eu sinto.
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| Vera França |
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| Suzanne por Lautrec |
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| Suzanne Valadon: "Nus" |
Não gosto de roupa justa, e não é só pelo desconforto, muito menos porque me envergonhe do meu corpo! O problema da roupa justa é que ela estabelece um diálogo muito óbvio com o corpo de quem veste. E a obviedade, sinônimo para a absoluta ausência de mistério, é o pior defeito que se pode admitir quando se trata do corpo de uma mulher! A elegância é o maior valor que uma mulher pode expressar, elegância em seu sentido mais amplo e profundo, que não pode ser confundido com o mero charme. O charme até admite uma dose de vulgaridade, e até mesmo pode vir a ganhar com uma dose dela. A elegância, não, nunca. Ora, não existe beleza altiva, isto é, elegância, na ausência de mistério, pois este implica uma certa distância, ao mesmo tempo em que se vislumbra para quem olha a possibilidade de uma epifania: mistura de surpresa e deslumbramento. E o encontro amoroso é um momento de epifania pagã que deve ser cuidadosamente preparado, e que só deve acontecer na intimidade à dois, no seu devido tempo, quando a mulher se deixa descobrir pelo olhar de seu homem em todos os seus contornos
Sempre me interessei pelos estados em que a mente divaga, foge para regiões não controladas pela luz, mergulha e retorna trazendo imagens estranhas ao mundo da vida real e que só podemos vislumbrar quando a consciência se apaga. Um estado mágico, em que o corpo em repouso e a mente em trabalho silencioso e intenso se unificam e tornam-se parceiros numa viagem, que muitas vezes é também busca. O grande Mistério! Sob as bênçãos e a proteção de Hypnos...
A palavra de vida fácil assusta, pois libera, solta a língua antes contida. A palavra, em seu sentido condicionada pelo "bom senso" da sociedade, nos condiciona: somos todos tolos, vítimas da proibição de sons e sentidos que as palavras malditas carregam. Nossas línguas, presas a hábitos, quando rompem as fronteiras encontram as cercas farpadas da censura altiva. Não nos é permitido o doce que é gozar pela boca a vida, ela mesma ávida a pedir a violência libertária e repetida do mantra que cantaria suas impurezas, todas essas belas, quentes redentoras impurezas que herdamos dela.